sábado, 22 de novembro de 2025

Escuta

 Quanto mais silêncio você fizer

mais o silêncio se fará.

Troca

 





Sem riso fácil

 

Não é um stand up comedy, não é um monólogo de teatro e nem uma peça de comédia. A fluidez com que a atriz e palhaça Glaucy Fragoso passeia pelas linguagens cênicas é só um dos aspectos que faz de “Eu não sou daqui” um espetáculo imprescindível para os loucos tempos atuais.


Partindo de uma história pessoal, confessadamente autobiográfica, Glaucy reacende o riso pelo viés subversivo e transformador, como ferramenta consciente de resistência, luta e sobrevivência. Sim, é muito engraçado! E comovente! Existe um raro e delicado lugar onde as duas máscaras arquetípicas do teatro, da comédia e da tragédia, se encontram. É ali onde reside esse espetáculo.


A infância pobre no interior de Santa Catarina, a mudança para o Rio de Janeiro cercada por sonhos, apuros e dificuldades e as anedotas em torno da não-monogamia, do fazer teatral e de certos dogmas religiosos são alguns dos ingredientes que atravessam a narrativa e provocam, poderia assim dizer, gargalhadas profundas, inevitavelmente nos conduzindo a uma reflexão sobre a condição humana.     


“Se eu quisesse riso fácil eu falava de c...”, diz a personagem, a certa altura. Sim, pode não ser fácil, pode até ser doloroso, mas não deixa de ser divertido... e necessário! Num momento em que a lógica opressora nos obriga a silenciar diante de certos temas, “Eu não sou daqui” demonstra a coragem de uma artista que ousou dar um “pio” a mais, e seguir adiante.

quarta-feira, 10 de setembro de 2025

Acrobacias para Manoel

Fotos: Renato Mangolin

A poesia está, entre outras coisas, no brincar com as palavras, nos ensinou o mestre Manoel de Barros. Uma vez que as palavras são refletidas e pronunciadas pelos seres humanos, deduzimos: os corpos, os agentes emanadores do verbo, também necessitam de brincar, para, assim, se transformar em poesia.

O novo espetáculo do Grupo Monjuá, “Sapo com Asas de Barro”, traduz em movimentos, jogos, acrobacias, danças e muitas brincadeiras o impacto que os versos de Manoel podem gerar nos corpos humanos.

A matéria humana se converte em sapos, vagalumes, aranhas, cobras, minhocas, ventos, água, argila, fogo, pedra, Sol, Lua... numa sequência sinuosa de movimentos que se abstém das palavras para criar um uníssono corpo poético, e despertar poesia.

Lembremos que poesia vem do grego “poiesis”, derivado do verbo “poiein”, que basicamente significa: “fazer”. Muito mais que um jogo articulado de palavras, a origem etimológica de “poesia” nos remete a um feito, a um acontecimento, a algo que pode ser efetivado na matéria a partir do verbo.

Nesse espetáculo, a poesia se faz, vai se fazendo, em cena, ao vivo, a cada precioso pequeno momento, a cada detalhe de cada passo, ou pulo, ou salto, dos quatro intérpretes no palco, sorrateiramente nos conduzindo ao inefável, àquele silenciamento involuntário diante do fascínio.

Curiosamente, por ser uma livre adaptação inspirada na obra de Manoel de Barros, o espetáculo não faz citação literal de nenhum texto do poeta. Os diálogos e a narrativa são curtos, pontuais e contundentes, escritos por Fábio Freitas e Ana Luiza Gonçalves.

Sobra espaço para o imagético, construído a partir das performances dos intérpretes Ana Luiza Gonçalves, Fernando Nicolini, Guilherme Gomes,

Helena Heyzer e Bárbara Abi-Rihan, com a direção de movimento de Lavínia Bizotto. Assim como em um poema, ou, talvez, como na vida, não há, exatamente, um início, um meio ou um fim, mas sim um contínuo acontecer ao longo da peça.

A trilha sonora original, de Beto Lemos, oferece um sabor à parte, ao evocar como que um espaço fora do tempo, na medida em que se relaciona aos timbres e melodias dos sertões profundos de nosso país. 

Padroeiro

Para o diretor Fábio Freitas, o poeta Manoel de Barros é aquele velho que não deixou sua criança envelhecer. Por criar esse modo de transver o mundo, de olhar pelo avesso, Freitas o considera, não sem razão, como uma espécie de poeta padroeiro dos palhaços e do circo.

O célebre autor de “Prefiro as máquinas que servem para não funcionar” nos ensina, ainda, que a poesia está em direcionar o nosso olhar para aquilo que não é comumente visto, para o que tende a ser preterido ou menosprezado. Em suas palavras, “tudo aquilo que a nossa civilização rejeita pisa e mija em cima serve para poesia”.

Em “Sapo com Asas de Barro”, esse lugar abandonado é o fundo do quintal de uma longínqua casa do interior, um cenário cheio de árvores e bichos estranhos, como a onça pintada de arco-íris, a preguiça espreguiçadeira, a aranha abelhuda, o tatuiuiú, o tamandoende e o crocochorro. De farta natureza, esse quintal é uma síntese do universo, de possibilidades múltiplas de brincadeira, um campo-base para o chão e para o espaço sideral.    

Utilizando como principal brinquedo uma engenhoca que nos lembra um trepa-trepa, desses comuns em parques infantis, só que de cabeça para baixo, e que também vira de lado, e balança, para cima e para baixo, e vira Lua, e vira Sol, e vira vento, criado exclusivamente para o espetáculo, os intérpretes em cena brincam de brincar, e dão gritos e urros, fazem acrobacias de tirar o fôlego, nos dão aquele frio na barriga.

Terminam por fazer uma massagem em nossos corações, ao transbordar uma alegria lúdica, aludindo a um encantamento de mundo, tão característico das infâncias, e que insiste em perseverar, como uma resistência frente às agruras de uma sociedade opressora e ambientalmente perplexa.

A certa altura do espetáculo, diante de um latafone, uma espécie de telefone feito de latas de leite em pó, um personagem indaga: “será que ele faz ligação de longa distância?” Ao que outro personagem retruca: “com quem você quer falar, que tá tão longe?” A resposta: “comigo mesmo! Lá no futuro. Quando eu for assim bem velhinho”.

“E o que você quer falar pra você velhinho?”, outro personagem pergunta. A resposta só pode ser conferida ao vivo.